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27 de Novembro de 2021

Jovem preso injustamente por 10 dias, após ser confundido com filho de traficante, é solto no Rio

Via @portalg1 | Depois de deixar a cadeia na tarde desta quarta-feira (13), o músico Vinícius Matheus Barreto Teixeira, de 21 anos, falou sobre o processo que, de forma equivocada, o levou preso. O jovem foi confundido com o filho do traficante "Feio", que tem o nome idêntico ao de seu pai. Entretanto, Vinícius nunca teve contato com o criminoso e foi vítima de erros da Polícia Civil e do Ministério Público na investigação.

"Primeiramente, quero agradecer toda a imprensa, a todas as emissoras que se mobilizaram com o meu caso e quero dizer que foram momentos difíceis que eu passei lá dentro daquela prisão e isso é uma coisa que não pode acontecer. Um inocente parar na cadeia por causa de um nome. Acho que a justiça tem que rever isso , rever, antes de dar um veredito final, antes de decretar um mandado de prisão para alguém, a justiça tem que verificar", disse ele.

Investigação teve erros grosseiros

O RJ2 apurou que o erro que levou à prisão do músico já havia sido percebido anteriormente pela defesa dos verdadeiros traficantes, que questionou o policial civil Leonardo de Souza Rosas, responsável pela investigação, como ele tinha relacionado Vinícius ao crime. (Veja no vídeo que abre a reportagem). O policial diz não se recordar com precisão.

O advogado de defesa pediu que a certidão de Vinícius fosse anexada ao processo para que fosse possível comparar com outros dados, como a data de nascimento e os nomes dos avós, de forma a demonstrar que Vinícius não tinha relação familiar com nenhum bandido.

Vinicius foi solto depois de ter passado mais de uma semana preso. Os pais do jovem estavam de plantão na porta do Complexo Prisional de Benfica, na Zona Norte do Rio, aguardando pela liberdade do filho.

"O lugar dele é aqui fora, porque ele não cometeu nada de erro, ele não cometeu nada. A gente tá aqui lutando mais um dia pra conseguir a liberdade do meu filho, porque isso é uma injustiça que eles estão cometendo", disse a mãe do jovem, Paula Barreto Gomes Teixeira.

Vinícius foi preso no dia 4 de outubro, em Macaé, no Norte Fluminense, acusado de associação ao tráfico. Ele não tinha antecedentes criminais.

Confundido com filho de traficante

Os parentes afirmam que Vinícius foi confundido com o filho de um chefe do tráfico do Morro do Palácio, em Niterói. O criminoso tem exatamente o mesmo nome do pai dele.

No último sábado (9), o pai e a mãe de Vinícius conseguiram visitar o jovem e informaram sobre a situação do processo.

"Passamos tudo isso pra ele, o que está acontecendo, e ele tá entendendo que foi um erro, que não tá certo o que estão fazendo", disse a mãe de Vinícius.

Como Vinícius foi injustamente envolvido no caso

Em 2017, um inquérito na Delegacia de Niterói, na Região Metropolitana do Rio, investigou o tráfico no Morro do Palácio.

Na época, a delegacia era chefiada pelo delegado Gláucio Paz da Silva e a polícia identificou o traficante Messias Gomes Teixeira, conhecido como "Feio", como o líder do crime na favela. "Feio" foi preso em 2018.

Em uma delação colhida pela polícia, foi relatado que o filho de "Feio" seria responsável por recolher o dinheiro da venda de drogas na comunidade. O filho do traficante foi identificado pela polícia como Vinícius Matheus Barreto Teixeira.

Em 2018, na denúncia da promotora Elisabete Barbosa Abreu, o Ministério Público também afirmou que Vinícius recolhia o dinheiro no morro por ser filho do traficante "Feio".

Com base nessas acusações, Vinícius teve a prisão decretada e depois foi condenado em primeira instância pelo juiz João Guilherme Rosas Filho.

Amigos de jovem preso acusado de tráfico no Rio afirmam que ele foi confundido e pedem liberdade — Foto: RJ2

O pai de Vinícius também se chama Messias Gomes Teixeira, assim como o traficante "Feio", mas são pessoas diferentes.

Tudo indica no inquérito e no processo que o filho do Messias traficante também está envolvido com o crime. Contudo, nem a polícia e nem a Justiça sabem o nome dele.

Ministério Público diz que denúncia foi embasada por inquérito policial

O MPRJ, em nota, disse que a denúncia levou em conta a investigação da polícia para embasar a denúncia.

"A acusação do MPRJ e o pedido de prisão preventiva levaram em consideração os elementos de prova colhidos em sede policial, dotados de presunção de veracidade, como acontece com os atos da Administração Pública. Para embasar a acusação da promotoria, foram arroladas nove testemunhas de acusação, dentre elas o próprio delegado titular, à época, da unidade policial por onde tramitou a investigação, e outros três agentes da referida autoridade policial", afirmou.

Diferença na identidade

Outro erro da Justiça durante o processo foi em relação a data de nascimento do pai de Vinícius. O Messias que está preso por tráfico nasceu no dia 24 de dezembro de 1979, diferente do pai do jovem preso, que nasceu em 26 de fevereiro de 1975.

Além da data de nascimento, a filiação dos dois também é outra. Essas diferenças não foram percebidas pela polícia no inquérito, nem pelo Ministério Público na denúncia e nem mesmo pela Justiça na hora da condenação.

O que dizem os envolvidos

A juíza Juliana Ferraz, da 4ª Vara Criminal de Niterói, esclarece que não é de responsabilidade do judiciário o possível erro na identificação de Vinícius Matheus, no ato da sua prisão.

Ela ressalta que a identificação não foi apenas pela coincidência do nome de Messias Gomes Teixeira, já que o nome de Vinícius Teixeira consta na denúncia do Ministério Público.

A Polícia Civil disse que cumpriu o mandado de prisão expedido pela Justiça. E que pode ter havido alguma falha na investigação que gerou o inquérito. Informou ainda que vai instaurar um procedimento para apurar o caso.

Por Lucas Soares, RJ2

Fonte: g1.globo.com

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